À medida que o Brasil evolui sua regulação para o mercado regulado de carbono (como o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, SBCE), empresas industriais de grande porte já estão se movimentando para estar prontas para o novo cenário. Um bom exemplo é a Braskem, líder no setor petroquímico, que já definiu metas, tecnologias e modelos de governança que colocam a companhia em posição adiantada nessa transição.
O que está mudando no Brasil — breve contexto
- Em dezembro de 2024, foi sancionada a lei que estabelece as bases para o mercado regulado de carbono no Brasil.
- Esse mercado vai exigir que empresas de setores regulados cumpram metas de emissão de gases de efeito estufa (GEE), e aquelas que não as atingirem poderão adquirir Cotas Brasileiras de Emissão (CBEs).
- O objetivo é criar previsibilidade regulatória, segurança jurídica, incentivar inovações tecnológicas e práticas produtivas de menor intensidade carbônica.
Como a Braskem tem se preparado
A Braskem demonstra já possuir diversas frentes de ação e compromissos que a alinham com o que será demandado no mercado regulado. Aqui estão os principais elementos da sua preparação.
1. Metas ambiciosas e alinhadas com neutralidade de carbono
- A empresa comprometeu-se a alcançar neutralidade de carbono até 2050.
- Tem meta de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 15% até 2030.
- Também busca evitar o envio inadequado de resíduos plásticos, eliminando 1,5 milhão de toneladas até 2030.
2. Uso de energia renovável, eficiência energética, eletrificação e novas tecnologias
- A Braskem investiu em energia renovável — boa parte de sua matriz energética já provém de fontes limpas.
- Projetos como o acordo com a Coolbrook, para eletrificação de equipamentos pesados como “crackers” (unidades de craqueamento), usando tecnologia disruptiva de reator rotodinâmico (RDR), são exemplos de como a empresa busca reduzir emissões diretas de combustíveis fósseis.
- A migração de processos tradicionais para outros mais eficientes ou que usem eletricidade renovável é parte estratégica para cumprir metas até 2030.
3. Expansão de portfólio sustentável (“I’m green™”, economia circular)
- A Braskem criou o portfólio I’m green™, com foco em resinas termoplásticas e produtos químicos com conteúdo renovável ou reciclado.
- As metas incluem: até 2025, 300 mil toneladas de produtos com conteúdo reciclado / renovável; até 2030, chegar a 1 milhão de toneladas.
4. Inovação, P&D e cooperações estratégicas
- Parceria com a Coolbrook para tecnologias de eletrificação dos crackers, com impacto estimado de redução de emissões de cerca de 2,5 milhões de toneladas de CO₂e/ano.
- Investimentos em eficiência operacional e projetos-piloto permitem testar novas formas de reduzir custos de emissão, otimizar processos e se adaptar à futura regulação.
5. Governança, transparência e relatórios
- A Braskem possui relatórios integrados que já trazem seus compromissos de longo prazo, metas intermediárias e indicadores de desempenho (pegada de carbono, gestão de resíduos etc.).
- A empresa já está ativa em iniciativas e discussões de políticas públicas, precificação de carbono e economia de baixo carbono, de modo a antecipar o ambiente regulatório.
Por que essas ações colocam a Braskem numa vantagem no mercado regulado
- Com metas já definidas, tecnologias em implementação ou estudo, a Braskem reduz o risco de ter que fazer adaptações rápidas e custosas quando as regras estiverem vigentes;
- Empresas com boa governança e relatórios consistentes tendem a ser vistas como menos arriscadas pelos investidores, o que pode facilitar acesso a financiamento ou condições mais favoráveis;
- Portfólios mais sustentáveis (produtos renováveis ou reciclados) estarão em melhor posição para atender exigências de mercado (consumidor, clientes industriais, cadeias globais) que incluam critérios ambientais fortes;
- A adoção antecipada de energia renovável e eficiência pode gerar economia de custos no médio/longo prazo;
- Transparência e engajamento público indicam compromisso sério, o que ajuda na reputação da marca e pode evitar penalizações regulatórias ou de imagem.
Desafios que ainda precisam ser enfrentados
- Reduções significativas de emissões exigem transformação de processos antigos, investimento em novas tecnologias, e podem demandar CAPEX elevado;
- Cadeia de fornecedores, matérias-primas e insumos precisam estar alinhados — nem tudo depende só da Braskem;
- Monitoramento, reporte e auditoria serão exigidos — exigir precisão, metodologias confiáveis, verificação externa;
- Incertezas regulatórias ou de mercado (preço de carbono, custos de energia, incentivos públicos) podem gerar riscos financeiros e estratégicos.
Reflexões para outras empresas
Para outras empresas industriais que vão precisar cumprir com as exigências do mercado regulado de carbono, algumas lições que se destacam no exemplo da Braskem:
- Defina metas de curto, médio e longo prazo, e compromissos claros (como Braskem fez para 2030 e 2050).
- Aposte em inovação tecnológica e parcerias para incorporar tecnologias limpas ou de baixo carbono.
- Avalie o portfólio de produtos: existe oportunidade de agregar valor com produtos renováveis ou reciclados?
- Use eficiência operacional como ferramenta de competitividade climática.
- Aprimore governança, reporte e transparência desde agora, para estar pronto para imposições regulatórias — inclusive sobre verificação independente.
Conclusão
A Braskem mostra que não se trata de esperar a lei vigorar, mas de se preparar para que, quando o mercado regulado de carbono no Brasil estiver plenamente implementado, a empresa já esteja operacionalmente, tecnicamente e organizacionalmente preparada para responder às demandas — reduzir emissões, gerar valor e evitar custos.
A trajetória da Braskem serve como exemplo para o setor químico e industrial: quem antecipa adaptações, quem inova e quem incorpora sustentabilidade na estratégia de negócio estará em vantagem.
Por Carbon Bridge
Conectando negócios e sustentabilidade através do mercado de carbono.

